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O Conto e a Crônica |
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A partir dos anos 70, houve uma verdadeira explosão editorial do conto e da crônica, por serem narrativas curtas, condensadas e atenderem à necessidade de rapidez do mundo moderno. Novas dimensões foram introduzidas no conto tradicional : subversão da seqüência narrativa, interiorizarão do relato, colagem de flashes e imagens, fusão entre poesia e prosa, evocação de estados emocionais.
A crônica, texto ligeiro, de interpretação imediata, com flagrantes do cotidiano, também passou a agradar o leitor tornando-se popular.
Autores que se destacam nesses dois gêneros:
Contos:
Mário de Andrade - Em muitos de seus contos é constatada a denúncia da hipocrisia da elite burguesa de São Paulo, bem como uma profunda análise psicológica dos personagens que retoma as teorias de Freud e desmistifica a relação familiar.
Monteiro Lobato - Consegue transmitir a alma do caipira como ninguém, a vida nessas cidades mortas, lugarejos que parecem sempre estar no domingo. Dotado de muito humor, tudoque escreve apresenta um toque um tanto satírico e cômico.
Crônica:
Fernando Sabino - Suas crônicas, são retratos da vida urbana, nos quais explora, com fino senso de humor, as sutilezas, os desconcertos e o nonsense do cotidiano. Além disso, sua obra tem revelado a preocupação com as injustiças, com os absurdos da vida, com os heróis quixotescos e com as indecisões do homem ante o "eu" e o "outro".
Rubem Braga - Suas crônicas tornaram-se, na modernidade, tão paradigmáticas do ofício do cronista, que seu estilo em muito se confunde com a própria definição do gênero na atualidade, retomando a arte do conto oral popular, dos contadores de causos do interior, em ritmo ruminante e lírico. Por vezes se apresenta na primeira pessoa, mas raramente é o centro da narrativa.
Luís Fernando Veríssimo - Escritor de texto refinado, sem rodeios. A objetividade de Veríssimo faz o que escreve fluir na cabeça de quem lê. Ele mesmo é homem tímido, de poucas palavras a dizer de boca. Talvez guarde fôlego para contar, no papel, tudo o que calou. A maestria de Veríssimo vem da capacidade de extrair do simples cotidiano temas extremamente complexos. Ele enxerga numa situação corriqueira o que não conseguiríamos ver sem o filtro do olhar verissimiano.
Leia agora uma cronica de Luís Fernando Veríssimo
"Criaturas" (extraído de "Sexo na Cabeça")
- Ora - disse Martins, com desdém - ele pensa que está sendo original. Mas este truque é tão antigo quanto Pirandello.
- Mais antigo até - disse Romualdo, sacudindo o gelo no seu copo. - Se não me engano, Flaubert já tinha escrito alguma coisa sobre o Autor como um Deus pairando sobre o próprio texto, invisível e onipresente ao mesmo tempo, guiando os destinos de seus personagens indefesos.
- Criaturas se rebelando contra o Criador - continuou Martins. - Francamente. Não duvido nem que Ele use a palavra "metalinguagem". Olha aí, já usou.
Aristides olhou em volta, confuso. Não havia mais ninguém na sala, toda decorada em estilo Luiz XV, além dos três.
- De quem é que vocês estão falando ? - perguntou.
- Dele - disse Romualdo, fazendo um gesto vago com seu copo.
- Ele quem ?
- O Autor deste texto.
Aristides sorriu, condescendente.
- Não vão me dizer que vocês acreditam que existe um Autor que nos criou e que guia nossos passos. Logo vocês, pessoas sofisticadas, esclarecidas...
- Você não acredita ? - perguntou Martins.
- Num autor onipotente que rege nossas vidas ? Não.
- Você não acredita que existe um autor que nos criou, nos colocou nesta página, numa sala decorada em estilo Luiz XV e nos deus estes diálogos para dizer?
- Não.
Martins e Romualdo trocam um sorriso de cumplicidade. Romualdo aproximou seu rosto de Aristides.
- Então me diga: como é que você está aqui ? Você de repente se materializou no meio de um texto, com um copo de uísque na mão ? Sem mais nem menos ?
- Meu caro - disse Aristides - , eu não pretendo tem uma explicação para todos os mistérios da existência humana. Só sei que a idéia de que sou o produto da imaginação de Alguém que na sua infinita bondade me botou nesta página é absurda.
- Ninguém falou em infinita bondade - interrompeu Martins. - Existe um Autor que nos criou e que nos tem em suas mãos, mas seu caráter é discutível.
- Se o Autor realmente é bom - disse Romualdo - que Ele faça abrir aquela porta e por ela entrar... a Bruna Lombardi !
Nisto, a porta se abriu. Os três levantaram-se, cheios de expectativa. Pela porta entrou... O Júnior Baiano!
- O que é que eu estou fazendo aqui ? - perguntou o jogador.
- Nada, nada. Você deve ter entrado pela porta errada. - disse Romualdo.
Júnior Baiano retirou-se e fechou a porta.
- Viu só ? - disse Martins. - Existe um autor que determina o nosso destino.
Mas Ele zomba de nós. Assim como nos colocou numa sala Luiz XV, poderia ter-nos botado numa mina de sal, ou sentados em cadeiras duras ouvindo o Bolero de Ravel. Nada o impede de me matar agora mesmo. Ou de me transformar num sapo. Romualdo afastou a cadeira ligeiramente, com medo que Martins caísse fulminado aos seus pés. Aristides protestou:
- Ridículo ! Eu comando o meu próprio destino. Se eu quiser, posso me levantar e sair por aquela porta agora mesmo. Nós todos podemos nos levantar, ir embora e acabar esta crônica na metade.
- Então levanta e sai - desafiou Romualdo.
Aristides continuou sentado.
- Se você é livre para para fazer o que bem entender, então abra a porta e saia desta página - insistiu Romualdo.
Aristides não se moveu.
- Outra coisa - continuou Romualdo. - Se você, como personagem, fosse dono do seu próprio destino, você escolheria estar logo aqui, num texto d'Ele ? Eu prferiria estar num texto do Drummond!
- Eu sou livre - disse, calmamente, Asdrúbal.
Martins sorriu, tristemente.
- Não sei se você notou. Mas Ele mudou o seu nome. Agora, em vez de Aristides, você é o Asdrúbal. E não pode fazer nada a respeito...
- Mas eu não aceito isso - disse Asdrúbal.
- E vocês notaram ? Ele só se refere a Ele mesmo com maiúscula.
- É um tirano. Um megalomaníaco. Tem o poder absoluto. Enche uma página inteira com as palavras que Ele quer, com os personagens que Ele inventa. Dispõe das nossas vidas como se...
- Mas nós temos que nos rebelar ! - gritou Asdrúbal. - Temos que impor nossa liberdade ! Nem que seja...
- O quê ! - disse Martins, desconfiado.
Asdrúbal baixou a voz. Tinha tomado uma decisão.
- Nem que seja pelo suicídio - disse. - Ele nos criou, e isso o torna superior. Mas nós, como Ele, podemos nos matar, e isto nos torna iguais.
- Mas aqui não tem arma nenhuma - disse Martins, escondendo o seu copo.
Um revólver materializou-se sobre uma mesinha laqueada. Asdrúbal o pegou.
- Não ! - disse Martins. - Você não vê ? Ele está usando você. Ele precisa de uma cena forte para o clímax da crônica e está forçando você a estourar seus miolos.
Os olhos de Asdrúbal brilharam.
- E se eu matar um de vocês ? Ou os dois ? Assim eu me igualo a Ele. Eu também tenho a vida de vocês em minhas mãos.
Os três agora estavam de pé. Romualdo recuou alguns passos. Martins ficou onde estava. Martins falou:
- Isto é o que ele quer, também. Criar suspense. À nossa custa.
Asdrúbal continuou apontando sua arma para Martins. Romualdo começou a andar de lado, lentamente. Talvez pudesse se aproximar de Asdrúbal por trás e roubar a arma.
- O que é que Ele quer de nós, afinal ? - perguntou Asdrúbal, sem baixar a arma.
- O que Ele queria já conseguiu.
- E o que era ?
- Encher esta página até aqui.
Romualdo estava quase às costas de Asdrúbal. Preparava-se para atirar-se sobre ele.
- Onde é que isto vai acabar ? - perguntou Asdrúbal.
- Aqui - disse Martins.
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